As Copas da minha vida
Na copa de 1958 eu ainda não tinha nascido.
Em 1962, me lembro vagamente do Arlindo, motorista lá de casa, com o radinho na orelha andando de um lado para o outro e meu pai perguntado a ele: “Arlindinho, como está o jogo?
Em 1966, assistíamos a um video-tape, na TV em preto e branco, com imagem sofrível pela péssima capacidade de recepção da antena da fazenda, em Ribeirão Bonito. Em um jogo entre Brasil e Uruguai – penso eu, – houve uma daquelas faltas inacreditáveis contra um jogador da seleção brasileira.
Meu pai, um Lord por natureza, cuja elegância e educação encantava a todos, nos surpreendeu com um salto de indignação, bateu o joelho na mesinha da TV que, tão surpresa quanto todos na sala, se esborrachou no chão… e ninguém mais pode assistir ao jogo, para consternação de meu pai, que saiu da fazenda e foi até a cidade buscar outra TV… Memorável!! Acho que foi aí que eu me dei conta de que Copa do mundo era alguma coisa muito importante!!
Em 1970, assistimos à copa, pela primeira vez à cores! Foi um êxtase ver o gramado, e eu, naquele mundo tão feminino, cheio de irmãs e de amigas – sem nenhum irmão por referencia – poder distinguir entre todos aqueles jogadores, quais eram os brasileiros e qual era o juiz… Assistimos aos jogos na casa do papai, foi uma festa ininterrupta ao longo de toda a Copa e a cada jogo saíamos para a rua comemorando e cantando “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!…” as sucessivas vitórias do time brasileiro!! Que delicia!!
Em 1974 eu já era uma mocinha e minha mãe promoveu almoços e quitutes para os dias de jogos, onde nossos amigos e os “tios” amigos de longa data, se juntavam a nossa família – já aumentada com novas crianças, os netos dos meus pais – na torcida pelo time brasileiro.
Em 1978 eu estava estudando fora do Brasil, e não me envolvi com os jogos, só tinha notícias pelo telefone quando falava com meu pai.
Em 1982, eu estava fazendo faculdade de Economia em Santos. Nunca mais vou me esquecer do terceiro gol da Itália, feito, se não me engano, pelo Paulo Rossi… saí da casa da minha amiga, fui andar de moto pela praça da Independência, e só havia um mendigo na rua, encostado no obelisco, chorando na garoa fina que cobria a cidade… “Ai, Telê! Ai, Telê!… Momento memorável também!!!
Em 1986, eu já estava esperando meu filho, mas ainda não sabia… dormi a copa toda!!
Em 1990, eu estava pensando em mudar de profissao, queria fazer Arquitetura. Entrei na faculdade no ano seguinte.
Em 1994 eu estava no meio da Faculdade, filho pequeno, um “transito paulistano, de matar”, quase perco um dos jogos!!!
Em 1998, eu estava em São Carlos, regando o jardim da minha casa que acabava de ser construída. Me mudaria pra lá logo depois da Copa, com a grama pega e tudo!… hehehehehe….
Em 2002, eu estava alucinada… trabalhando feito uma louca, de sol a sol, literalmente!… não vi a Copa.
Em 2006… Existiu um ano 2006 ??? Bom se existiu, acho que foi neste ano que, durante a Copa, eu fui me esconder em Garopaba, com medo do cansaço e da roda viva em que eu havia me metido!
Em 2010, eu assisti a um único jogo, em Roen, no norte da França, eu e um albatroz, que ficou olhando pra mim e para o telão da choperia onde eu havia parado para ver o jogo… o albatroz olhou pra mim, olhou para o telão, levantou vôo e foi se instalar no alto de uma cumeeira… tirei uma foto deste episódio, desta única testemunha da minha decepção… quando fotografei o albatroz (acho que era um!) vi que ia cair a maior chuva!… saí da choperia e fui visitar uma Igreja… quando entrei soube que o Brasil havia perdido o jogo… mudei de freqüência e fiquei curtindo a Igreja… Mais um momento memorável!!
Eu gostaria de conseguir postar aqui a foto testemunhal deste momento…
E você? O que estava fazendo nas copas da sua vida?
